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Mostrando postagens de Dezembro, 2019

Quarta-feira

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Há dias que o mal do mundo acerta-me em cheio,
da anca sem esperança, do moribundo ateu,
dos dias que nem no alto dos Pirineus,
pude contemplar, com inveja, o sucesso alheio...

E assim empurro os segundos que hão de vir,
e assim desejo os pensamentos que se arrastam em arestas,
como um sandeu, vejo com claridade que viverei,
em paralelo mundo, onde os versos marinam minhas ilusões.

E a chuva cai, ela sempre cai,
em dias cinzas, nicotinados,
por esta falta de esperança...

E assim, quando vejo teu sorriso,
atrevo-me a reforçar o status quo,
que perdi desde que a fibra de meu peito
rompeu o vácuo da existência terrena!

Oras, hão de chegar os motivos,
arrastando os passos pelo passeio português,
abarrotado de lixo, imundo da vivência
dos que, como eu, vivem sem a esperança.

E seja assim, como justifica-se,
vivendo o dia como se fosse o último,
a melhor das justificativas dos derrotados...

O âmago vazio, um trago, um pensamento,
consumindo os segundos,
em tarefas tortuosamente repetitivas…

Cartagena

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Embebedado estaria em Bogotá,
do néctar que cintilantemente escorria
da nau de sua cova facial.

Os remos do nunca-sei,
de milésimos de afrescos e tangerinas,
respirando os átomos que te enebriam.

Iremos juntos a Cartagena,
girassóis e formóis,
besuntado em cristais do Caribe.

Embebe-me com teu suor,
embebe-me com a certeza
de que, de fato, nunca estaremos lá!

Morra!

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Disse-me, rogando pela minha morte.
Rompante risonho que estrilava as superfícies translúcidas,
enquanto jogava o peso corpulento na cadeira estática.

Subiu aquelas escadas como se fosse a última vez,
acenou e desejou, novamente, um fim moribundo.
Luto para não esquecer teu semblante...

O capitão-mor da nau da fanfarronice, eras tu.
Ensinou-me a valorizar cada milésimo de segundo,
deixou-me forte, tenro e friamente insensível.

Subiu aquelas escadas e nunca mais voltou,
seja para esbravejar,
seja para bradar,
Aquelas velhas palavras de ordem.

Morra!

*Homenagem póstuma a Luiz Carlos Martins


Cântico ao desesperançoso

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Por teimosia, somente por ela, visito o enterro de minhas quimeras
Últimas evidências químicas natimortas e silenciosamente sombrias
Molécula por molécula,  benzeno por benzeno rogo pela lucidez
Subjugado, estalado indubitável de quando aos prantos ela me deixou...

Centelha cortejada com as licorosas esperanças ajoelhei-me,
desejando, sobremaneira, as cintilantes notas de minha respiração.
E lá estava você, intacta, ignorando solenemente o estrago que fez
Afinal a causa é sentida somente por quem com ferro em brasa ferido foi...

Ao visitar tais lembranças embaraço-me,
padeço-me neste cortejo sem fim,
Semblante sonâmbulo daquele que jaz
E apodrecerá aos pés de quem já se foi...