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Revolta do Feijão



Nem a burocratização do departamento impediu a discussão sobre o desejo incontrolável de Antonio em relação ao feijão, o qual chamava de diamante marrom. Em pequenos espaços de diálogo entre ele e a equipe, o assunto emergiu como uma ato religioso em que defendia que sua vontade era, tão somente, de estar nu e rolando sobre as reluzentes sementes num dia de sol.





Queria, na verdade, é estar junto de bom punhado de feijão cozido, embebedado com seu caldo espesso e saboroso num dia de sol para que pudesse ver os raios solares endurecerem sobre minha pele a sua parte líquida e a formação de uma camada desidratada tentando sequestrar o entorno de meu corpo…





Dia após dia, o assunto do feijão pairava sobre as almas calejadas e cansadas dos trabalhadores do departamento. Ele era o chefe da seção fazia poucos meses. Como um vendaval, virou a rotina burocrática, pálida e escravizante de seus subalternos de cabeça para baixo. Era assim que ele via: maximizando a burocracia estatal para conter a sangria dos parcos recursos públicos que a sustentava.





Os tempos eram difíceis como se humanidade tivesse quebrado as leis da física newtoniana e voltasse no ano de 1929 para sentir, sem remorsos, a quebra da bolsa de Nova York, caro Einstein.





O problema, caros leitores, é que o feijão tem rito próprio passado de geração por geração de cada família. A começar pela variedade do grão, mas ali, como por coincidência divina, todos usam o famoso Carioquinha. O outro é o modo de preparo. No rito diário, alguns, deixavam os grão de molho com a troca da água por pelo menos duas vezes para diminuir a emissão de gases tão caros ao momento ecológico em que viva o planeta naquele tempo. Outros atacavam os grãos sem lavagem prévia e os mandavam diretamente na panela de pressão. Sendo este utensílio, a grande invenção do século para aquele país, apesar do insistente anonimato nos grandes meios de comunicação. Alguns ainda tinham o sortilégio de adicionar linguiças embutidas, folhas de louro, mas o sal somente após o cozimento.


Percebia-se aos poucos que o feijão era a grande religião que unia a massa dos trabalhadores e dos burgueses. O rito, a concentração e a degustação das sementes era o ato que uniam todos numa grande casta.





Os debates sobre o abençoado feijão foram se espalhando entre as repartições. Rompendo o curral físico de onde surgiram. No período de três meses, o feijão ganhou um culto oficial. A Associação de Adoradores de Feijão (AAF) padronizou o culto e instituiu o método. Os cultos semanais, aceleraram a ruptura entre a associação e os plebeus que não queriam abrir mão do seu modo de cozinhá-lo. Em um ano, já existiam pelo menos duas dúzias de seitas separatistas que garantiam que eram o único e genuíno modo pelo qual o homem chegaria ao feijão.






Antonio assumiu o posto de uma dessas seitas, se intitulando o genuíno, o escolhido, criando a Aliança dos Trabalhadores pelo Feijão Carioca (ATFC).





E a humanidade, na reprise da história, se viu dividida novamente. E o ato de cozinhar o feijão acabou se tornando um ato do Estado cujo os trabalhadores estavam proibidos de executar sem a presença de um ministro sacerdotal para chancelar o, agora, ato religioso.





Em uma noite, vinte anos após o “cozimento inicial”, Antonio dormia em seu palacete de mármore adornado com imagens de feijão feitas por grandes artistas de sua contemporaneidade, quando um grupo separatista em prol ao feijão livre, adentrou o imóvel e sem muito alarde o sequestrou.





Você é o culpado pela desgraça de meu povo, dizia Calebe, o Feijoada, que foi guarda mirim do departamento de onde a epopeia do feijão foi deflagrada.


Eu? Dediquei meus dias para a igualdade e para o fortalecimento de uma moral democrática para todos!


Que igualdade? A de explorar os menos favorecidos? Jogá-lo numa vala comum? Manterem eles de fome? Com a proibição, hoje feijão só contrabandeado e foi assim que formamos o Primeiro Comando do Feijão. Associando irmãos e garantindo acesso e segurança nesta guerra civil criada por você, seu bastardo!





Açoite após açoite, Antonio teve o rosto desconfigurado. Murmurava, gemia e era hostilizado. Por vezes, com um pedaço de ripa crua com um prego na ponta. Em outras vezes era amarrado para que os ratos da pocilga d’onde estava se alimentassem do sangue podre que acumulava em seu rosto colado ao chão. Enquanto suas mãos amarradas pelas costas e seu quadril tentava sustentar o peso de seu corpo, ficando, ali, como se estivesse de cócoras.





E com duas facadas num cativeiro na zona leste, Antonio foi martirizado. Beatificado sete anos depois pela Santa Igreja dos Imaculados feijões...





Percebeu, com os olhos entreabertos, que estava amarrado a uma cama hospitalar. Seus braços e pernas sem mobilidade. O ambiente era limpo, com paredes claras e cheirava a alvejante. Ao lado da cama, uma mesinha de inox brilhosa com seringas preparadas com uma substância desconhecida e prontas para serem utilizadas.





Ao tentar desburocratizar a máquina, Antonio enlouqueceu.





Numa quarta-feira, após um surto psicótico foi levado às pressas a um hospital psiquiátrico. Foi informado que no departamento o qual gerenciava, sua liderança passou a ser negativa desencorajando os servidores públicos. Episódio que passou a ser tratado nas manchetes dos jornais locais como a Revolta dos Feijões.





E foi assim que ele deixou de ser útil para a sociedade. E como uma doença social, assim como inúmeros desconhecidos, passou anos internado numa clínica particular, custeada por familiares, a contragosto destes. Porém cada um que custeie o louco da família.





E quando saiu daquele pálido e gélido local, já não tinha mais o brilho de seus olhos, o sequestraram. Passou, como se fosse uma galinha, a alimentar sua alma com migalhas de uma verdade relativa vomitada por alguém. Como um porco, chafurdando na lama em busca de preencher as horas que lhe restavam; E como um cachorro amansado, a correr atrás do próprio rabo incessantemente. Sem saber de fato se, pelo menos, conseguiria, por alguns segundos, rolar no caldo nutritivo do feijão numa tarde ensolarada num sítio distante do caos e da cidade...











Comentários

Escolhidas pelos leitores

Cântico vulgar

Bem mais alto que todas minhas expectativas,
nu estaria em busca de um sentido!
No alto daquela torre,
nos caminhos rente ao mar.
Nos dias de lamentações,
no escuro de um quarto vulgar,
nu estaria em busca de um sentido.

As primeiras notas, sensações taciturnas.
notas carveólicas, frívolas  e irritantes
daquele que nunca foi ou será!


Cynar

Quando desço, padeço, pereço!
Quando leio, esqueço o começo,
sem Cynar...

Quando desço, sento: emudeço!
Tramposeio o beiral da insensatez
dos que buscam a razão, sem ração!

Sem bordeio, sem segredo, sem rodeio: pereço!

Nas rimas imundas apregoadas na cortina do córtex,
na amalgama mistura de sinapses cerebrais,
transcendo-me na penumbra orbicular do absurdo... 



Brasília

A vida pulsa,
No congresso ou em seus palácios,
Na estação, o cordel encantado,
emaranhado de rostos, brasileirice de etnias!

Do perfume da culinária raiz,
do artesanato de resistência,
das gemas reluzente
e do sangue de vossa gente!

De suas avenidas longas, sem calçadas,
De seu concreto imponente, sem gente,
De seus jardins suspensos, sem grito!

Status quo de nossa vergonha,
escondidos famintos, miseráveis, desgraçados,
resilientes residentes!

-Que o governo dê um jeito!

Dorme, este, em mais um domingo,
em berço esplendido.
Enfeitiçado por seu próprio retrato,
na fina lamina de seus lagos,
esculpidos em carrara, Brasília!






Prasãda

Consciência d'alma,
tu és o que és
como grandes amigos

Imagens sacras e seculares no divã
não sou minha mente,
não sou meu pensamento.

Prasãda de quimeras indomáveis
Passagem para um mundo indubitável
Estarei junto a ti aqui e ali

Como posso junto a ti, em ti?
Como posso junto a si, em si?
Como posso junto a vos, em vos?




Três vezes

Tábua da esmeralda cintilar epopeia, Caldeu
No pântano imundo dos que perecem em ti, ó Thoth
Três vezes grande, três vezes!

Na antro, no canto, no santo!
Comigo, contigo e com todos nós!
Três vezes grande, três vezes.

No livro dos mortos,
Interoperar contínuo entre todos os fractais
cintilante experiência, vivência!

Três vezes grande, três vezes!




Retambana de pesares

A direita, corrupção
A esquerda, socrócios
Ao centro, negócios

Retambana de pesares

No bairro, sequestro
Na fila, tambores
Na Câmara, favores

Retambana de pesares

Conservadores, paspalhos,
Progressistas, otários
Bonafacistas, cansados

Retambana de pesares

Comunismo, continuísmo
Capitalismo, senhores
Anarquismo, sem cores

Retambana de pesares.

Se há negócios, socrócios, corrupção,
Pedidos, favores, cabrestos e senhores
Se na taba, não há mais nada.

Retambana de pesares

Caminheiro

Sentimento taciturno,
absurdamente cítrico,
algazarra midiática,
contumaz e perniciosa!

Caminhando pelos vales de gramíneas,
angiospérmicas relvas verdejantes.
dísticas e alongadas esperanças.

Se tu não foi, não irá;
se irá, não voltarás,
pelo riacho de novidades
nas águas reusadas e inéditas.

Caminhando pelo vales da sombras;
Caminhando pelos vales dos lírios;
Caminhando sobre espécies invasoras;
caminhando inodoramente!


Caminho

Não há literatura sagrada,
Não há modelo perfeito,
Não há, não há, não há.

Não sabes a perfeição, temporariamente;
causal caminho para alma.
Não há, não há, não há.

Você é o caminho
o único caminho
cansado, sonâmbulo, sobrinho.


Insatisfação desejante

Amor é desejo, eros.
Desejo é a falta.
A inclinação do homem para o que ele não tem.

Amar é desejar,
desejar é não ter!
Equação macabra!

Ou desejas o que não tem
Ou quando tens o que deseja,
não o desejas mais.

Amor pelo trabalho, no desemprego.
Amor pelo dinheiro, na pobreza.
Amor pela paz, na guerra!

Todos desejantes,
inferência imediata.
Guiados pela insatisfação,
desejante!

Matéria-prima da politica,
gestão do desejo.
Busca da redução interrupta da ausência

Se fosse a gestão da satisfação,
cogitaríamos solução de convivência boa,
de uma vez por todas.

Não buscaríamos, mais nada.
Conservação do status quo de satisfação.
Uma utopia, ilusão!

Todo desejo satisfeito é extinto.
Ocupado por um novo,
desejo!



Canção do Exílio a Dom Bertrand

Minha terra tem florestas, Onde canta o maraca Os corvos que aqui cacarejam Nem sequer sabem como é lá...
Nosso chão tem mais afouteza, Nossas matas mais fomento Nosso bosques tem mais vida Choram os chamadores, voi a la!
Em cismar, sozinho, à noite Entreguistas, eu encontro-lá Na minha terra tem florestas, mais que o dobro, do que cá!
Em cismar, os entreguistas, em Açores. Mais passarinhos, eu encontro lá; Minha terra tem florestas, Onde cantas, sem charabiá!
Não permita Deus os cabeçorras, Incendeiem mentes ocas por lá, Sem que desfrutem da verdade Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as florestas, Onde um dia andou Tibiriçá


(Homenagem a Gonçalves Dias)