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Mostrando postagens de Agosto, 2016

Soneto do covarde

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Embriagado deixo para uma próxima vez, talvez...
Aquilo que negou e deixou, pelas suas mãos, escapar.
Embriagado, deixo mais esta vida que se apontou, às seis;
Com toque aplumado e sútil nesta cútis cintilar...

Vou-me embora e volto quem sabe num sonho;
Vou-me embora sem troco com estilhaços de sentimento.
Deixe-me caminhar na direção como um burro enfadonho.
Deixe-me, não sentirás, tomara Deus,  este toque bisonho.

É hora de partir, sem lembrar o que te fiz.
É hora de sentir, saudades com gosto de anis.
Já é tarde para esperar sua vontade por um triz.

Talvez um dia recorde e sinta o tátil- emotivo...
Suplique para vivenciar este sentimento nocivo.
Naquele dia, lembrará: as lágrimas em seus olhos transbordará.



Sobre a Humanidade

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Não consegue provar nem sua própria existência
Como queres, divina, explicar o iminente caos?
Como queres, como cínica, explicar naos?
Talvez seja esta a nossa verdadeira prepotência

Não prova, o que consegue, a existência própria?
O caos explica, cinicamente, como queres?
O naos explica,  divinamente, como queres?
Talvez seja esta a nossa verdadeira inadimplência...

Repita este canto: não tem explicação...
Repita este encanto: não tem comparação...
És o que és, o ser-eterno sem solidão.

Repita o mantra: não tem imaginação...
Repita o tantra: não tem solidão...
Viva a sua humanidade sem nenhuma explicação!

(ARCHANGELO, A. Ápeiron, Ed. Buriti, 2019)


Fragmentos do silêncio

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Ruídos que no rompante quebram o silêncio
Mas não revelam a gritaria de bilhões de pensamentos
Memórias que, na paúra, desfilam em diversos fragmentos
Insensíveis toques frios devorados por algum corrodêncio.

Talvez, na ansiedade, estivéssemos em Bizâncio?
Oras, sabemos que estão cintilantes todos os argumentos
Pairam, porém, sobre a barreira que nunca virará sentimentos
Tais delírios de um inverno num longínquo estirâncio.

Arquitetou, talvez, teus sólidos argumentos.
Planejou, sem êxito, a posse de tais proventos.
Escutá-lo-ei as reclamações e a valsa-sentença

Deixarás o caminho seguir sem que saia isento?
Daqui uns anos, talvez oitocentos
Receberá com encanto tais memórias a contento!


(ARCHANGELO, A. Ápeiron, Ed. Buriti, 2019)





Indecisão

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Não sei
                      Sei!
Não sei...
Sei!
                                   Vá...
Volte!
Não...
Sei!
Sim


Da Despedida

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Escreva, no fundo da epiderme, o fim deste encanto!
Transcreva, no fundo da hipoderme: não há santo...
Prenda em sua memória, se capaz for, com adraganto,
o fim, ignore, leve este último piricanto!

Como um canto, a reprise deste encanto.
Com espanto, percebes que não há encanto?
Não há, entre os mortais, nenhum santo?
Princípios, jogue todos em algum canto!

O fim daquilo que tanto você negou...
O fim disposto do que tanto insuflou,
Devolvo-te tua atribulada rotina...

Não existe, percebes, maneira de voltar
Não existe, ligação, capaz de resgatar
Guarde esta canção, para algum dia arrebatar!


Soneto a Prisco

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Ela se foi sem se importar
Excluiu, sem receio, toda a falação!
E toda aquela presente falta de ação.
Ela se foi e não vai voltar!

Deletando a alegoria ou o desabrochar
Excluindo toda aquela mansidão
Sem receio, dolo ou resquício de paixão
Ela se foi e não vai voltar!

Um brinquedo, sem segredo?
Um segredo, sem enredo...
Ela se foi e não irá voltar!

Esmeraldino, Vai-se cedo?
Não queiras saber o fim do enredo?
Ela se foi sem se importar...

(ARCHANGELO, A. Ápeiron, Ed. Buriti, 2019)



Desagoneio

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Percebes a inigualável quimera,
quem entre os moucos assevera?
Chama que destrói e te espera
na leitosa bruma, prouvera?

Esperá-lo-ás como num devaneio?
Esperá-lo-ia! Num desagoneio
Na brisa matutina permeio
Essa quimera por quem esperneio...

Onde estás a camurça-cetim?
Caminhou a trilha, a Flor-de-cetim
Esquecê-lo-ás as sílabas deste folhetim

Onde estás a senhora-dama, perdida num festim?
Dançaste com desconhecido a valsa pantim?
Esquecê-lo-ei a melodia doce do flautim!


(ARCHANGELO, A. Ápeiron, Ed. Buriti, 2019)




Trova dançante

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A cada riso, um pranto
A cada pranto, espanto!
O controle é incontrolável
Sua posse, insaciável!

A cada sílaba, um canto
A cada canto, quantos?
Azuis que invadem a rotina
Como uma ave de rapina, serena e tranquila...

A tranquilidade logo foi embora
A musa-dançante sumiu da trova
E a dor de quem espera, a contraprova

Teve que sair, mundo afora
Ao louco as rimas e trova
Da inservível que lhe adora.



(ARCHANGELO, A. Ápeiron, Ed. Buriti, 2019)



Memórias

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Permita, quem sabe, a memória
Com olhar que penetra e me afoita
Permita, quem sabe, se esconda
Debaixo de importunas sombras.

Que as palavras descartadas e arredias;
As silabas aplumadas sobre o esteio fizeram
Despertar, sem preocupação, esta redondilha
Que a flavus; aos poucos lhe entrego

Posto que é chama, que arda.
Posto que é ferida, que doa.
Permita-me, Deus, que morra

Sem antes toca-lá, Fúlvia
Saciando a intacta sede
Adentrando-a, você cede?


Comédia-pastelão

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Ela sorriu e fingiu esquecer.
Ela mentiu fingindo saber!
O que quer os olhos cintilantes?
Acusar-me de litigante?

Ela sorriu com saber
Ela exprimiu, por querer
Quer-me os olhos revoltantes?
O que acusa a diletante?

É uma trova certeira...
Uma cigarra sorrateira...
Um rato preso numa ratoeira...

Um  instante de alucinação...
Um comediante, em ação...
Um drama, comédia-pastelão!


Cântico do Infortúnio

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Viver é angustia de quem espera
A esperança de quem prospera
Infortúnio de quem nunca obtempera
Um cântico perene, além da esperada véspera...

Se por acaso, por um relapso temporal
A vida que pulsa, com sol ou temporal
As lágrimas de alegria ou tristeza
Corroboram para a certa incerteza,

Se anda, cabisbaixo, sem sapatos
Se corre, confiante, nêveda-dos-gatos
Algum dia, por certeza, o fio arrebentará

Colecionará tristezas, certezas e artefatos?
Chorar-te-ás nos cantos, tantos comodatos?
Do apocalipse, próprio? Almejando o ósculo?